No Outono de 2018 eu estava em São Paulo observando a história ser escrita diante dos meus olhos. É assim que se apresenta uma capital cosmopolita em qualquer parte do globo. Nesses lugares o espírito universal da história se manifesta. Certa feita, enquanto eu andava pela terra da garoa procurando e pensando em qual lugar eu iria jantar, lembrei de um restaurante que um confrade tinha me indicado. Se chama Capivara Bar. Fica na Barra Funda, longe do glamour de bairros como Moema, que era onde eu estava hospedado. Depois de tomar um banho eu chamei um Uber e fui direto para o restaurante.

Chegando no lugar, eu percebi que o restaurante mais parecia uma mistura de boteco pé sujo com borracharia. Por fora, claro! Por dentro a infraestrutura é simples, só que impecável; limpo, silencioso e um pouco caloroso. No fundo tocava desde Adoniran Barbosa a Noel Rosa, ou seja, do Rio de Janeiro ao túmulo do samba. Como a cozinha é aberta, dava para olhar o trabalho dos cozinheiros em uma concentração religiosa que me lembrava as imagens dos monges do monte Atos.

Como o local é simples, as mesas também são compartilhadas. E logo na minha frente estava sentada uma moça, branca, olhos castanhos e com um sorriso simpático. Ela lembrava a beleza da mulher mediterrânea, com aquela sensualidade natural e pitadas de nobreza do campo. Pois bem, aproveitando para me despedir da minha solidão eu disse:
– Olá, tudo bem?

– Tudo bem, e contigo?

Confesso que fiquei nervoso. Não tenho o hábito de puxar assunto com estranhas. No entanto, percebi a simpatia dela no olhar e não queria me arrepender de trocar algumas palavras com essa teofania. Eu ficava encantado com a maneira dela falar, com a voz cadenciada, delicada, divertida e ao mesmo tempo formal, me deixava muito animado. Afinal, em tempos de liquidez nos afetos qualquer conversa longa se tornou artigo de luxo. Ademais, ela me contava sobra a vida dela ao mesmo tempo que a gente degustava um delicioso tártar de atum misturado com um molho profundamente delicioso. Ela me dizia que estava descontente com o futuro, pois é nova e não via nenhuma perspectiva para a vida dela, por conta do governo e de otras cositas más. Coisas da conjuntura… nada diferente do que eu já tinha ouvido por aí, nessas andanças da vida. No entanto, ouvir tudo isso da boca dela era diferente, era como ouvir Parsifal de Wagner, era como escutar a recitação de Fausto de Goethe ou da Antígone de Sófocles.

Enfim, ela era doce, calma e parecia muito contente comigo. Me disse que eu parecia muito maduro para minha idade. Acho que ela disse isso só para me seduzir, mas não importa, foi bom! Como já era tarde ela tinha que ir, a gente trocou contato, ela prometeu me mandar uma mensagem quando chegasse em casa. Na hora de se despedir ela se aproximou, olhei fixamente para os olhos dela, senti a sua respiração ofegante, toquei no rosto dela, ela riu. Não a beijei, não achei que era o lugar apropriado. Ela se foi, ficamos de se encontrar outro dia. A voz dela não saia da minha cabeça enquanto eu voltava para o hotel. Por fim eu pensei: a comida é de fato uma poesia tocada por chefes e degustada por um casal apaixonado.

Cronica escrita por Marcos Vinicios P. Almeida

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