“Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”
– George Santayna

O acidente radiológico que ocorreu em Goiânia em setembro de 1987 é uma cicatriz na história da capital goiana. Apesar de ter sido o maior acidente radiológico do mundo, uma pesquisa realizada pela UFG constatou inúmeras formas de silenciamento que contribuem para suprimir a memória do goianiense sobre o acidente.

A pesquisadora Célia Helena Vasconcelos, com o estudo “Césio-137, trinta anos depois: silenciamento discursivo de uma tragédia”, investigou os fatos históricos que gradativamente vêm sendo retirados da narrativa goianiense.

acidente com cesio 137 em goiania tecnicos retiram lixo radioativo das areas contaminadas 1504131720359 956x500 - Tentativa de esquecer o maior acidente radiológico de Goiânia é apontada em pesquisa da UFG

Realizado pelo Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística, da Faculdade de Letras, o estudo observou o silenciamento dos espaços mais importantes relacionados ao acidente, com a mudança de nomes das ruas e de órgãos públicos e a construção de prédios.

E também faz referência à construção do Centro de Convenções no lugar onde foi encontrado a cápsula de Césio-137, esquecida nos destroços da clínica abandonada pelo Instituto de Radiologia Goiana (IRG).

Atualmente, a clínica não existe mais. “Não existe sequer uma plaquinha avisando que foi ali que tudo começou”, chama a atenção a pesquisadora.

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Célia Helena destacou ainda a mudança de nome do instituto responsável por atender e prestar auxílio às vítimas do acidente em Goiânia. A Superintendência Leide das Neves Ferreira (Suleide), criada em 1987, foi renomeada para Fundação Leide das Neves (Funleide) em 1999, e posteriormente desmembrada em duas unidades: o Centro de Assistência aos Radioacidentados (C.A.RA) e o Centro de Excelência em Ensino, Pesquisa e Projetos Leide das Neves Ferreira (CEEPP-LNF), em 2011.

Segundo Célia, “Leide não é só um nome. Leide das Neves remete logo ao acidente. Ela é um ícone, um signo. Ao tirar esse nome, silencia-se não só parte de nossa história, mas também daquelas pessoas que ainda hoje buscam por ajuda ali, que já têm dificuldades de buscar por seus direitos. Nem sempre elas conseguem ter acesso e são ainda mais silenciadas”.

Apesar das tentativas de manter o sigilo sobre o acidente, Célia ressalta que não há como apagar a história do que aconteceu. “O silêncio discursa, e os lugares que foram silenciados são significativos. Eles não estão emudecidos, apenas calados”.

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Segundo ela, o discurso referente ao acidente com o Césio-137 pode resgatar sua voz a qualquer momento: com alaridos como foi o marco de 30 anos do acidente em 2017, ou timidamente como ocorreu em 2018, quando pouco se ouviu falar sobre o tema.

A pesquisa foi realizada através de um acervo que Célia Helena desenvolveu ao longo de sua investigação. A dissertação de Célia pode ser lida no site da Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da UFG

Essa reportagem foi publicada no site CURTA MAIS GOIANIA.

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